A LUXAÇÃO DO OMBRO DE REPETIÇÃO

A instabilidade gleno-umeral (luxação do ombro de repetição), é uma afecção que desde seus primeiros relatos históricos impressiona pelo alto grau de complexidade e por ter um tratamento desafiador até os dias atuais.

O que é Luxação?

A luxação de uma articulação ocorre quando um osso se desloca e sai da posição de contato com o outro.

Durante o processo de luxação do ombro, a cabeça do úmero (osso do braço) se desloca para frente em relação à glenóide (osso do tórax). Quando não existir mais contato entre a superfície articular da cabeça do úmero e da glenóide, o ombro estrará luxado.

É raro?

Devido a sua configuração anatômica, que permite uma grande e importante amplitude de movimento, a articulação gleno-umeral (entre o úmero e a escápula) tem uma frequência alta de luxação, podendo corresponder, em algumas populações a até metade dos casos de luxações que acometem o corpo humano.

A luxação do ombro apresenta alto índice de incidência nos atendimentos de pronto socorro. Normalmente decorrente de traumas automobilísticos ou esportivos.

O que fazer com o ombro luxado?

A suspeita de uma luxação de ombro é muito fácil de ser feita, pois a forte dor e incapacidade funcional são características. Uma vez confirmada a luxação com radiografias, a articulação pode ser reduzida (colocada no lugar) após administração de analgésicos e técnica adequada de tração. Assim que o ombro volta a sua posição normal (geralmente com um solavanco), a dor cessa imediatamente gerando grande alívio. O paciente fica com analgésicos e uma tipóia para conforto até que o processo inflamatório melhore.

Meu ombro voltou para o lugar, e agora?

O paciente deve então procurar uma avaliação com um especialista na área, pois toda luxação de ombro leva a uma lesão das estruturas internas que promovem a estabilização do ombro. Uma grande parte destas lesões podem deixar o ombro vulnerável a luxações recorrentes, levando a importante limitação do paciente para desempenhar atividades laborais e esportivas.

O especialista vai poder indicar se o caso pode ser tratado com reabilitação muscular ou se necessita de reparo cirúrgico das estruturas.

Isto é feito através do exame físico associado à historia do paciente, do entendimento das demandas pretendidas, e é claro, das lesões associadas.

Que lesões eu posso ter?

A principal lesão estrutural decorrente deste processo é a avulsão (ruptura) capsulo-labral anterior chamada de “Lesão de Bankart”. O labrum anterior é a estrutura fundamental na estabilidade do ombro e sua lesão pode levar a luxações recorrentes, necessitando de sua reinserção na glenóide para que a estabilidade do ombro seja reestabelecida.

Outras lesões anatômicas que podem ocorrer são fraturas da borda do osso da glenóide (Bankart Ósseo) e fraturas de impacção da cabeça do úmero (Lesão de Hill-Sachs).

Podem também ocorrer avulsões ósseos e lesões do manguito rotador, estas mais frequentes em pacientes acima de 45 anos.

Como eu posso prever se minha lesão vai necessitar de reparo?

Esta resposta depende de muitos fatores, sendo a idade do primeiro episódio um dos principais. Quanto mais jovem for o paciente, maior a chance de precisar operar. Estudos científicos relatam uma taxa de recorrência da luxação de 90% em pacientes abaixo de 20 anos, 60% em pacientes na faixa de 20 a 40 anos, e 10% em pacientes acima de 40 anos.

Outros fatores importantes são o grau de atividade do paciente e a presença de lesões ósseas decorrentes da(s) luxação(s).

Existe um consenso que em pacientes jovens e/ou muito ativos ou em pacientes com lesões ósseas associadas à luxação de repetição está indicado o tratamento cirúrgico.

Em casos com baixo risco de novos episódios, normalmente é indicado tratamento com fisioterapia, visando fortalecer e treinar a musculatura do ombro.

Como é a cirurgia?

No caso de lesões por arrancamento do labrum e da cápsula, a cirurgia feita é a reinserção destas estruturas ao osso. Este reparo capsulo-labral é chamado de “Cirurgia de Bankart” e pode ser feito por artroscopia (vide texto sobre a artroscopia).

Em caso de lesões ósseas muito grandes ou em pacientes que praticam esportes de muito contato físico, podem ser necessários outros tipos de cirurgias. As técnicas variam caso a caso, mas em sua maioria são abertas.

Uma boa conversa no consultório é importante para que você entenda todos os passos do procedimento em questão e também sobre sua reabilitação.

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